Documentário mostra resistência índígena à hidrelétricas no Tapajós

publicado em 18 de novembro, 23:55. Originalmente em:

Indio é Nois

“Indios Munduruku: Tecendo a Resistência” é lançado nesta semana no Brasil e na Inglaterra. Etnia luta contra construção de usinas na bacia do rio, no Pará, e ainda não tem terras demarcadas.
No oeste do Pará, índios da etnia munduruku tecem cestos e entrelaçam resistência contra a construção de hidrelétricas ao longo do rio Tapajós. “O povo munduruku é muito guerreiro. Luta por justiça de uma maneira muito nobre, tentando dialogar. Está tecendo uma resistência e enfrentando a situação de forma pacífica”, diz a documentarista Nayana Fernandez.

A brasileira de 33 anos percorreu aldeias da tribo indígena ao longo do rio Cururu, afluente do Tapajós, para registrar a luta dos munduruku contra um complexo hidrelétrico. O projeto prevê a construção de mais de 20 barragens na bacia do Tapajós, com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

O resultado das filmagens é o documentário Índios Munduruku: Tecendo a Resistência, lançado nesta semana no Brasil e na Inglaterra, simultaneamente. A produção independente contou com o apoio de organizações britânicas e de lideranças da etnia munduruku.

“Por que tirar o que nos resta? Todo esse Brasil era da população indígena”, questiona um dos entrevistados. “A gente costuma dizer que esse é um projeto de morte”, diz outra indígena.

Nayana conheceu os índios munduruku em setembro de 2013, quando acompanhou uma jornalista inglesa ao norte do país para identificar focos de resistência contra grandes obras federais.

Sensibilizada com a tradição da tribo indígena, Nayana voltou à bacia do Tapajós em fevereiro deste ano com a ideia do documentário. “A construção das usinas vai mudar quem eles são e industrializar um ambiente indígena tradicional”, diz.

A documentarista se lembra da filmagem de uma audiência pública sobre o projeto, que contou com a vigilância de homens do Exército. “Foi uma situação muito tensa. A audiência foi inteiramente em português e as perguntas deveriam ser feitas por escrito. A maior parte dos munduruku não sabe escrever. É um povo de cultura oral”, conta Nayana.

Para “conseguir as imagens mais doces, do tecer e das crianças”, ela teve que se aproximar lentamente para ganhar a confiança dos índios munduruku. “Existe uma preocupação com o tipo de material que será feito. Historicamente, muita gente filma e depois some, ganha dinheiro com a imagem dos índios sem trazer nenhum resultado.”

Autodemarcação

Em setembro, índios munduruku iniciaram a autodemarcação da terra indígena Sawré Muybu, entre os municípios de Itaituba e Trairão, no oeste do Pará, a poucos quilômetros da área prevista para a construção da usina de São Luiz do Tapajós. Eles cercam o território ocupado historicamente pela etnia de forma independente.

Uma carta divulgada pela tribo nesta segunda-feira (17/11) aponta que as tentativas de demarcação foram frustradas após uma série de negativas da Fundação Nacional do Índio (Funai).

“Nesses 30 dias da autodemarcação, já caminhamos cerca de 7 quilômetros e fizemos 2,5 quilômetros de picadas. Encontramos 11 madeireiros, três caminhões, quatro motos, um trator e inúmeras toras de madeira de lei às margens dos ramais em nossas terras”, diz a carta.

A equipe de produção do documentário, associações locais e o movimento Munduruku Ipereg Ayu pretendem criar uma campanha de financiamento coletivo para fortalecer as ações da etnia indígena, com a criação de uma associação e o apoio à autodemarcação das terras.

O documentário Índios Munduruku: Tecendo a Resistência está disponível na internet em português e inglês.

Fonte: O Povo

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1st OPEN LETTER ON THE SELF-PROCLAMATION OF DAJE KAPAP EYPI INDIGENOUS TERRITORY

[English translation follows]

Sawré Muybu Village, Brazil
November 17, 2014

Our elders told us that the anteater is calm and quiet, keeping to itself and troubling no one – but that when it is threatened, its embrace and claws are deadly.

This is our way: quiet, calm, like the anteater. But the government is disturbing our peace; the government is meddling with Mother Earth, our wife.

Today, the 17th of November, marks three months since our meeting with the national Indian agency (Funai) and government representatives in Brasília, to demand the publication of the land claim report that defines the territory we know as IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAM DAJE KAPAP EYPI – I’E CUG’AP KARODAYBI. This report was completed in September 2013 but remains unpublished to this day. We were told by Maria Augusta, then president of Funai, that our lands occupy an area slated for hydroelectric development, and that the report was not published because of the interests of other government bodies. Two weeks after this meeting in Brasília, we received news that the federal public prosecutor had filed a motion requiring Funai to publish the report. It did not comply. Last week, we learned that the regional federal court judge for Region 1 revoked the injunction. We Munduruku have seen this all too often. We will never hang our heads in defeat: The fight goes on! We are the true keepers of this land, since before the Portuguese invaded.

Today also marks one month since we began our self-proclamation of the IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAM DAJE KAPAP EYPI Indigenous Territory, out of mistrust in the duplicitous words of the government and its organs.

Ensuring the lasting life of our territory is what gives us strength and courage. Without the earth, we could not survive. She is our mother, and we respect her. We know the government is moving against us, with its great projects to destroy our river, our forest and our life.

We Munduruku of both the Middle and Upper Alto Tapajós call this territory our home.

For decades we have waited in vain for the government to proclaim our right to this land, and meanwhile it is dying. Our forest is crying from the trees that we find left behind on illegal logging roads, for clandestine sale to sawmills; government environmental inspectors do nothing. Thirty truckloads of lumber have been hacked down on just one of these access roads, where ancient ipe trees and immense stands of açai palms have been stripped away. Our hearts are sad.

In 30 days of our self-proclamation campaign, we have already traveled some seven kilometers of our perimeter, and cleared two-and-a-half kilometers of boundary lines. Within our lands, we have come across 11 loggers and three logging trucks, four motorcycles and one harvester, as well as countless logs from protected species along their trails. On the morning of November 15, four loggers entered our work camp by surprise: trespassers led by a man named Vilmar, who claimed he owned six lots inside our territory and would never let us take his land; he planned to take legal action on November 24.

We hereby declare that we will no longer wait for the government to act, and resolve to proclaim this territory on our own. We call for the government to respect our work, our ancestors, our culture and our life. We will stop only when our work is done.

SAWE! SAWE! SAWE!

Carta I da Autodemarcação

I CARTA DA AUTODEMARCAÇÃO DO TERRITÓRIO DAJE KAPAP EYPI

Aldeia Sawré Muybu – Itaituba/PA, 17 de novembro de 2014

Nossos antigos nos contavam que o tamanduá é tranquilo e quieto, fica no cantinho dele não mexe com ninguém, mas quando se sente ameaçado mata com um abraço e suas unhas.

Nós somos assim. Quietos, tranquilos, igual o tamanduá. É o governo que está tirando nosso sossego, é o governo que está mexendo com nossa mãe terra – nossa esposa.

Hoje, 17 de novembro, faz três meses que reunimos com a FUNAI e representantes do governo em Brasília-DF exigindo a publicação do relatório da demarcação da Terra IPI` WUYXI`IBUYXIM`IKUKAM; DAJE KAPAP EYPI – I`ECUG`AP KARODAYBI. Em setembro de 2013 o relatório delimitando nosso território foi concluído, mas não foi publicado e escutamos como resposta da então Presidente da FUNAI, Maria Augusta, dizendo que a nossa terra é uma área de empreendimentos hidrelétricos, e que por causa do interesse de outros órgãos do governo o relatório não foi publicado. Após duas semanas da reunião de Brasília recebemos notícias de que o Ministério Público Federal entrou com ação obrigando a FUNAI a publicar o relatório, o que a mesma não fez, e semana passada ficamos sabendo que o desembargador do TRF-1 caçou a referida liminar. Mas isso não foi novidade para nós Munduruku. Nunca abaixaremos a cabeça e abriremos a nossa mão, a luta continua! Somos verdadeiros donos da Terra, já existimos antes da chegada dos portugueses invasores.

Hoje também fez um mês que iniciamos a autodemarcação da nossa Terra IPI`WUYXI`IBUYXIM`IKUKAM DAJE KAPAP EYPI, por não confiar nas palavras enganosas do governo e de seus órgãos.

Garantir o nosso território sempre vivo é o que nos dá força e coragem. Sem a terra não sabemos sobreviver. Ela é a nossa mãe, que respeitamos. Sabemos que contra nós vem o governo com seus grandes projetos para matar o nosso Rio, floresta, vida.

Esse território atende às populações do Médio e Alto Tapajós.

Esperamos pelo governo há décadas para demarcar nossa Terra e ele nunca o fez. Por causa disso que a nossa terra está morrendo, nossa floresta está chorando, pelas árvores que encontramos deixados por madeireiros nos ramais para serem vendidos de forma ilegal nas serrarias e isso o IBAMA não atua em sua fiscalização. Só em um ramal foi derrubado o equivalente a 30 caminhões com toras de madeiras, árvores centenárias como Ipê, áreas imensas de açaizais são derrubadas para tirar palmitos. Nosso coração está triste.

Nesses 30 dias da autodemarcação já caminhamos cerca de 7 km e fizemos 2 km e meio de picadas. Encontramos 11 madeireiros, 3 caminhões, 4 motos, 1 trator e inúmeras toras de madeiras de lei as margens dos ramais em nossas terras, e na manhã do dia 15 fomos surpreendidos em nosso acampamento por um grupo de 4 madeireiros, grileiros liderado pelo Vilmar que se diz dono de 6 lotes de terra dentro do nosso território, disse ainda que não irá permitir perder suas terras para nós e na segunda próxima estaria levando o caso para a justiça.

Agora decretamos que não vamos esperar mais pelo governo. Agora decidimos fazer a autodemarcação, nós queremos que o governo respeite o nosso trabalho, respeite nossos antepassados, respeite nossa cultura, respeite nossa vida. Só paramos quando concluir o nosso trabalho.

SAWE, SAWE, SAWE.

1st OPEN LETTER ON THE SELF-PROCLAMATION OF DAJE KAPAP EYPI INDIGENOUS TERRITORY
[English translation follows]

Sawré Muybu Village, Brazil
November 17, 2014

Our elders told us that the anteater is calm and quiet, keeping to itself and troubling no one – but that when it is threatened, its embrace and claws are deadly.

This is our way: quiet, calm, like the anteater. But the government is disturbing our peace; the government is meddling with Mother Earth, our wife.

Today, the 17th of November, marks three months since our meeting with the national Indian agency (Funai) and government representatives in Brasília, to demand the publication of the land claim report that defines the territory we know as IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAM DAJE KAPAP EYPI – I’E CUG’AP KARODAYBI. This report was completed in September 2013 but remains unpublished to this day. We were told by Maria Augusta, then president of Funai, that our lands occupy an area slated for hydroelectric development, and that the report was not published because of the interests of other government bodies. Two weeks after this meeting in Brasília, we received news that the federal public prosecutor had filed a motion requiring Funai to publish the report. It did not comply. Last week, we learned that the regional federal court judge for Region 1 revoked the injunction. We Munduruku have seen this all too often. We will never hang our heads in defeat: The fight goes on! We are the true keepers of this land, since before the Portuguese invaded.

Today also marks one month since we began our self-proclamation of the IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAM DAJE KAPAP EYPI Indigenous Territory, out of mistrust in the duplicitous words of the government and its organs.

Ensuring the lasting life of our territory is what gives us strength and courage. Without the earth, we could not survive. She is our mother, and we respect her. We know the government is moving against us, with its great projects to destroy our river, our forest and our life.

We Munduruku of both the Middle and Upper Alto Tapajós call this territory our home.

For decades we have waited in vain for the government to proclaim our right to this land, and meanwhile it is dying. Our forest is crying from the trees that we find left behind on illegal logging roads, for clandestine sale to sawmills; government environmental inspectors do nothing. Thirty truckloads of lumber have been hacked down on just one of these access roads, where ancient ipe trees and immense stands of açai palms have been stripped away. Our hearts are sad.

In 30 days of our self-proclamation campaign, we have already traveled some seven kilometers of our perimeter, and cleared two-and-a-half kilometers of boundary lines. Within our lands, we have come across 11 loggers and three logging trucks, four motorcycles and one harvester, as well as countless logs from protected species along their trails. On the morning of November 15, four loggers entered our work camp by surprise: trespassers led by a man named Vilmar, who claimed he owned six lots inside our territory and would never let us take his land; he planned to take legal action on November 24.

We hereby declare that we will no longer wait for the government to act, and resolve to proclaim this territory on our own. We call for the government to respect our work, our ancestors, our culture and our life. We will stop only when our work is done.

SAWE! SAWE! SAWE!

VÍDEO: Funai admite pressão e condiciona demarcação à hidrelétrica

Funai admite pressão e condiciona demarcação à hidrelétrica

Autarquia afirma que o relatório de terra indígena no médio Tapajós ainda não foi divulgado por causa de interesses hidrelétricos na região. 

Um vídeo, filmado pelos Munduruku em setembro deste ano, mostra uma reunião entre membros da Funai, indígenas e entre a então presidenta da Funai Maria Augusta Assirati, que afirma ter sido pressionada por setores do Governo Federal para não assinar o relatório da Terra Indígena Sawré Muybu . Ela chega a chorar e diz que ainda não publicou os estudos e o mapa com as coordenadas da TI  porque outros órgãos do Governo Federal passaram a  discutir a demarcação, que se aprovada, inviabilizaria legalmente a construção da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós.  Além de indígenas, ribeirinhos e representantes da Fundação,  também estavam presentes Nilton Tubino,  da Secretaria Geral da Presidência da República e Celso Kjinic, do Ministério de Planejamento.

 

Maria Augusta teria se comprometido em publicar o relatório em abril deste ano, mas não cumpriu a promessa. Após meses de espera, os Munduruku foram até Brasília cobrar a divulgação no Diário Oficial. Arissati confirma que estudos estão prontos e que estavam na mesa dela, mas que após a conclusão, em setembro de 2013, “órgãos do governo passaram a também  discutir a proposta do relatório, discutir a situação fundiária na região”. Ela expõe os motivos: “Vocês sabem, né?! Que ali tem uma proposta de se realizar um empreendimento hidrelétrico, uma hidrelétrica ali naquela região que vai contar com uma barragem pra geração de energia e essa barragem tá muito próxima da terra de vocês (…). Quando a gente concluiu o relatório surgiram dúvidas se essa área da barragem, se esse lago que essa barragem da hidrelétrica vai formar, vai ter uma interferência na terra indígena de vocês, na área de vocês, na vida de vocês”.

TRF aceita alegações da Funai e suspende decisão que mandava demarcar a Terra Indígena Sawré Muybu, dos Munduruku

Por , 12/11/2014 21:33

Os Munduruku acendem fogueira no local de uma mina ilegal de ouro que foi encontrada durante a busca perto do rio das Tropas, um dos principais afluentes dos rios Tapajós e Amazonas. Foto: Lunae Parracho, Reuters

Tania Pacheco* – Combate Racismo Ambiental

O desembargador federal Kássio Nunes Marques, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região,  aceitou as alegações da Funai de que está cumprindo seu Plano Plurianual 2012-2015, demarcando Terras Indígenas nas regiões Centro-Sul, Sudeste e Nordeste (resta saber em qual país) e suspendeu liminar concedida pela Justiça Federal no Pará, favorável aos Munduruku da Terra Indígena Sawré Muybu.

O juiz Rafael Leite Paulo havia acatado as ponderações do Ministério Público Federal e dado prazo de 15 dias para que a direção da Funai aprovasse ou não o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) da T.I., que descansa na mesa de sua presidência desde setembro de 2013. Caso aprovado, a Funai teria outros 15 dias para publicá-lo no Diário Oficial da União e do Pará, com o respectivo memorial descritivo e mapa da área.

O desembargador Kássio Nunes Marques entendeu, entretanto, que, embora o processo de demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu tenha começado em 2001 e esteja pronto para aprovação há mais de um ano [repito], não há “manifesto propósito protelatório ou infundada omissão atribuíveis à FUNAI”. Para ele, a procrastinação é explicável considerando-se a “inegável complexidade da questão”. E ele esclarece sua posição:

“… se os problemas de conflitos narrados na peça vestibular são decorrentes da incerteza provocada pela inexistência da demarcação, por outro lado, a indicação da delimitação, de forma açodada, sem que carreada da estrutura necessária para a garantia imediata destes limites, o que exige orçamento para pagamento de indenizações, desapropriação para assentamos e uma série de providências que seriam exigidas imediatamente após a divulgação da delimitação, pode provocar maiores conflitos na região”.

Veja a decisão completa do Juiz em: http://racismoambiental.net.br/2014/11/trf-aceita-alegacoes-da-funai-e-suspende-decisao-que-mandava-demarcar-a-terra-indigena-sawre-muybu-dos-munduruku/

Comunicado ao Governo Brasileiro, emitido por lideranças do povo Munduruku

Foto: Maurício Torres

Povo Munduruku envia Comunicado ao governo federal cobrando a demarcação da terra indígena Sawré Muybu, e criticando a falta de vontade dos representantes do governo de irem até às aldeias para conversarem sobre o projeto das hidrelétricas de São Luiz do Tapajós e Jatobá. Confira o documento:

Nós, povo Munduruku, aprendemos com nossos ancestrais que devemos ser fortes como a grande onça pintada e nossa palavra deve ser como o rio, que corre sempre na mesma direção. O que nós falamos vale mais que qualquer papel assinado. Assim vivemos há muitos séculos nesta terra.

O governo brasileiro age como a sucuri gigante, que vai apertando devagar, querendo que a gente não tenha mais força e morra sem ar. Vai prometendo, vai mentindo, vai enganando.

Abaixo destacamos alguns pontos que mostram a má fé do Governo com o povo Munduruku:

Desde janeiro de 2001 o governo promete que vai fazer a demarcação da terra indígena Sawré Muybu. No ano passado toda a documentação para homologação e registro de nossa terra já estava pronta. Em setembro de 2013 o Relatório para delimitação foi concluído, mas não foi publicado. O Ministério Público Federal teve que entrar com ação obrigando a FUNAI a publicar o relatório, o que não fez até agora.

O governo não quer fazer demarcação porque isso vai impedir as hidrelétricas que eles querem fazer em nosso rio, chamadas de São Luiz do Tapajós e Jatobá. Já que o governo não quer fazer a demarcação, decidimos que nós mesmos vamos fazer. Começamos a fazer a autodemarcação e só vamos parar quando concluir nosso trabalho.

Assim como não quer fazer a autodemarcação, o Governo age de má fé quando impõe sua agenda sem deixar espaço para nós ao menos indicar o local de reunião, como acontece agora com a reunião de 5 e 6 de novembro.

Nós decidimos que a reunião seria realizada na Aldeia Sai Cinza, o que foi acordado na oficina de capacitação que ocorreu na Aldeia do Mangue nos dias 28 e 29 de outubro de 2014 e está registrado em ata. Passamos o mês todo em articulação para que as lideranças e os caciques pudessem participar dessa reunião tão importante que será discutida como queremos ser consultados. O Governo mudou o local da reunião em cima da hora, faltando dois dias para ela acontecer. Agora não temos tempo nem condições de rearticular a mudança da reunião para o médio Tapajós.

Além disso, o Governo se negou a dar a quantidade de gasolina que pedimos para garantir a ida de nossos parentes que moram mais longe de Jacareacanga. Acreditamos que é responsabilidade do governo garantir o transporte dos Munduruku do Alto e Médio Tapajós tanto por água e por terra até o local da reunião, mas o mesmo se nega a garantir recursos dizendo que o custo é muito alto.

Queremos dizer ao governo que não precisa ter medo em vir nas Aldeias Munduruku, pois será muito bem tratado como foi o Nilton Tubino na Aldeia Sawré Muybu no dia 25 a 27 de agosto do deste ano. Queremos lembrar que é o próprio Governo que nos mete medo com sua força, a exemplo do que aconteceu com a operação eldorado na Aldeia Teles Pires que levou a óbito o nosso parente Adenilson Kirixi e a invasão daAldeia Sawré Muybu pela Força Nacional em Março de 2013.

Queremos dizer também que estamos juntos, parentes do alto e baixo, lutando para a demarcação da terra indígena Daje Kapap Eipi, conhecida pelos pariwat como Sawré Muybu. Esse trabalho agora é prioridade para nós. Decidimos que os Munduruku que fazem parte do Movimento Munduruku Ipereg Agu, do alto Tapajós, e Associação Pahyhyp, do médio Tapajós, não vamos participar da reunião com o governo nos dias 05 e 06 de novembro. E só voltaremos a falar com o governo depois que a terra indígena Sawré Muybu for demarcada e homologada.

Jacareacanga e Itaituba, 03 de novembro de 2014

  • Roseninho Saw Munduruku – Associação Pahyhyp
  • Maria Leuza Cosme Kaba Munduruku – Movimento Munduruku Ipereg Agu
  • Arlindo KKaba
  • Francisco Waro Munduruku
  • Adalto Jair Akay Munduruku
  • José Manhuari Crixi – Tesoureiro Ass. Pusuru
  • Josias Manhuari Munduruku

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